Não dormi a noite toda. Era
véspera do meu casamento. Eu e meu noivo fomos namorados de colégio e sempre
estivemos juntos. Aquele casal que todos diziam ser perfeito, num
relacionamento onde não existiam brigas, ciúmes ou desconfianças. Por sermos
sempre muito sinceros, não existiam joguinhos ou mentiras. Assim, o
relacionamento durou e foi fortalecido, junto com o nosso amadurecimento.
Crescemos como pessoas e como casal, como filhos, como colegas e como
profissionais. E o fizemos juntos.
Depois de muita pressão dos
familiares e expectativa nossa, o dia do casamento chegou. Quando houve o
pedido e os planejamentos, parecia uma data longínqua. Mal percebi o tempo
passar. Parece que dormi um longo período e acordei na noite anterior à cerimônia.
Uma grande festa completamente planejada, com mais de quatrocentos convidados e
uma banda conhecida pronta para um belíssimo show. Todos estavam ansiosos para
ver o resultado de tanto trabalho. Todos, menos eu.
Passei o dia como se
estivesse anestesiada. Não senti quando alguém arrumou meu cabelo, minhas
unhas, meu rosto e me colocou no belo vestido branco rodado com decote coração.
Não vi quem foi. Foi quase uma experiência extracorpórea da qual tanto falam.
Algo como um filme onde eu era a protagonista e a espectadora. Eu vi um vestido
branco, mas não me mexi para colocá-lo. Não ajudei aquelas pessoas. Apenas
segui com o fluxo. As dúvidas e incertezas já haviam rondado minha mente
algumas semanas antes, mas naquele dia, naquelas horas, as perguntas eram
insuportáveis.
Comecei a tremer. Já estava
no carro, esperando para entrar na Igreja. Esse dia era um sonho meu. Um sonho
que estava prestes a se tornar realidade. Uma realidade que eu não mais queria.
De repente, me tornar a esposa do homem que mantém o título de namorado há oito
anos não é uma idéia que me agrada. O cansaço me pegou. Amigas próximas
perguntavam como eu conseguia agüentar tamanha perfeição, um relacionamento
inteiro sem brigas e sem espontaneidades. Tudo sempre muito bem planejado e discutido,
antes de praticado. O entendimento na cama sempre foi ótimo e eu nunca pude
reclamar, mas também nunca tive parâmetros de comparação. Ele foi meu primeiro
namorado. E único, até aquele momento.
Eu realmente cansei.
Invejava minhas amigas solteiras que saíam com rapazes e não sabiam onde a
noite poderia terminar. Admirava as amigas que cobiçavam o meu relacionamento.
A monotonia já era rotina há tantos anos, que me acostumei e não prestei mais
atenção. De início, tentei mudar, fazer coisas novas, mas ele não tomava
iniciativas, então eu não era encorajada a tentar melhorar o relacionamento.
Por amar muito o meu noivo, continuei ao seu lado. E não era tudo ruim. Era
tudo maravilhoso. Maravilhoso demais.
O pânico tomou conta de mim.
Quando o carro parou à porta da Igreja, a porta se abriu, eu saí e corri. Tirei
os sapatos no meio do caminho e os deixei na rua. Chamei um táxi e fui para a
minha casa. Ou para a nossa casa. Para a casa dele, na verdade, pois eu estava
me mudando. Desde agora. Troquei de roupa, fiz uma mala para alguns dias e
liguei para uma amiga – que estava no casamento. Pedi abrigo. Não chorei. Todos
ficaram chocados com a minha atitude, mas eu me senti revigorada. Minhas
energias estavam recarregadas, apenas com essa decisão de última hora, com essa
vontade louca de novas experiências, novos ares, novas pessoas.
Algumas vezes, não queremos
o que é perfeito, queremos o que nos faz bem. Eu tinha o perfeito. O homem
perfeito, o trabalho perfeito, a família perfeita. Ainda assim, eu era vazia.
Sentia que faltava um pedaço de mim. Ainda estou na casa da minha amiga, sem
saber para onde vou. Mas, afinal, hoje é o dia do meu casamento. Hoje eu me
casei comigo mesma. E estou adorando me conhecer.


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