quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Conheci alguém


Não dormi a noite toda. Era véspera do meu casamento. Eu e meu noivo fomos namorados de colégio e sempre estivemos juntos. Aquele casal que todos diziam ser perfeito, num relacionamento onde não existiam brigas, ciúmes ou desconfianças. Por sermos sempre muito sinceros, não existiam joguinhos ou mentiras. Assim, o relacionamento durou e foi fortalecido, junto com o nosso amadurecimento. Crescemos como pessoas e como casal, como filhos, como colegas e como profissionais. E o fizemos juntos.
Depois de muita pressão dos familiares e expectativa nossa, o dia do casamento chegou. Quando houve o pedido e os planejamentos, parecia uma data longínqua. Mal percebi o tempo passar. Parece que dormi um longo período e acordei na noite anterior à cerimônia. Uma grande festa completamente planejada, com mais de quatrocentos convidados e uma banda conhecida pronta para um belíssimo show. Todos estavam ansiosos para ver o resultado de tanto trabalho. Todos, menos eu.
Passei o dia como se estivesse anestesiada. Não senti quando alguém arrumou meu cabelo, minhas unhas, meu rosto e me colocou no belo vestido branco rodado com decote coração. Não vi quem foi. Foi quase uma experiência extracorpórea da qual tanto falam. Algo como um filme onde eu era a protagonista e a espectadora. Eu vi um vestido branco, mas não me mexi para colocá-lo. Não ajudei aquelas pessoas. Apenas segui com o fluxo. As dúvidas e incertezas já haviam rondado minha mente algumas semanas antes, mas naquele dia, naquelas horas, as perguntas eram insuportáveis.


Comecei a tremer. Já estava no carro, esperando para entrar na Igreja. Esse dia era um sonho meu. Um sonho que estava prestes a se tornar realidade. Uma realidade que eu não mais queria. De repente, me tornar a esposa do homem que mantém o título de namorado há oito anos não é uma idéia que me agrada. O cansaço me pegou. Amigas próximas perguntavam como eu conseguia agüentar tamanha perfeição, um relacionamento inteiro sem brigas e sem espontaneidades. Tudo sempre muito bem planejado e discutido, antes de praticado. O entendimento na cama sempre foi ótimo e eu nunca pude reclamar, mas também nunca tive parâmetros de comparação. Ele foi meu primeiro namorado. E único, até aquele momento.
Eu realmente cansei. Invejava minhas amigas solteiras que saíam com rapazes e não sabiam onde a noite poderia terminar. Admirava as amigas que cobiçavam o meu relacionamento. A monotonia já era rotina há tantos anos, que me acostumei e não prestei mais atenção. De início, tentei mudar, fazer coisas novas, mas ele não tomava iniciativas, então eu não era encorajada a tentar melhorar o relacionamento. Por amar muito o meu noivo, continuei ao seu lado. E não era tudo ruim. Era tudo maravilhoso. Maravilhoso demais.
O pânico tomou conta de mim. Quando o carro parou à porta da Igreja, a porta se abriu, eu saí e corri. Tirei os sapatos no meio do caminho e os deixei na rua. Chamei um táxi e fui para a minha casa. Ou para a nossa casa. Para a casa dele, na verdade, pois eu estava me mudando. Desde agora. Troquei de roupa, fiz uma mala para alguns dias e liguei para uma amiga – que estava no casamento. Pedi abrigo. Não chorei. Todos ficaram chocados com a minha atitude, mas eu me senti revigorada. Minhas energias estavam recarregadas, apenas com essa decisão de última hora, com essa vontade louca de novas experiências, novos ares, novas pessoas.


Algumas vezes, não queremos o que é perfeito, queremos o que nos faz bem. Eu tinha o perfeito. O homem perfeito, o trabalho perfeito, a família perfeita. Ainda assim, eu era vazia. Sentia que faltava um pedaço de mim. Ainda estou na casa da minha amiga, sem saber para onde vou. Mas, afinal, hoje é o dia do meu casamento. Hoje eu me casei comigo mesma. E estou adorando me conhecer.


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